Onde atua o gênero?

Recolher os dados a partir dos nomes das mulheres não visa apenas demonstrar que as mulheres eram muito mais visíveis do que se diz. Mesmo que esse aspecto seja importante em uma historiografia que está dando especial atenção aos dados a partir da prática das assembleias e tribunais (cuja regra é a de não nomear as mulheres, Schaps 1977), para nós, tal questão serve para trazer à luz as diversas apreciações da diferença entre os sexos nas sociedades antigas, que faz atuar o parâmetro da diversidade nos contextos de aparição dos nomes. O que construiu a invisibilidade e a visibilidade das mulheres? Quais são as práticas que tornam as mulheres invisíveis, e quais práticas as tornam visíveis? Deixando de lado o problema mais amplo da « dominação masculina », a pesquisa optou por se concentrar na relação entre a prática discursiva e o registro do nome: a proibição do acesso das mulheres à justiça implica na invisibilidade dos denunciantes e testemunhas; a necessidade (relativa) de garantir uma venda implica na visibilidade daqueles que estão envolvidos, tanto proprietários quanto inquilinos. Em outras palavras, em vez de usar a categoria dominante de documentos – o resultado da transmissão de manuscritos relativos às atividades das assembleias políticas e dos tribunais -, o caminho para produzir uma análise convincente é comparar as diferentes práticas discursivas para analisar o modo como essas práticas afetam o registo do nome e da percepção do indivíduo, o modo como o gênero está envolvido em práticas sociais presentes nessas práticas discursivas, e como o gênero interage com todos os determinantes sociais (idade, riqueza, status político ou social, origem geográfica e cultural etc.).

O gênero como questionamento atravessa assim a totalidade de nossa investigação. Usado como uma categoria de análise, o gênero é uma ferramenta para colocar uma questão aparentemente simples: o que os antigos faziam com o que chamamos diferença entre os sexos? Quanta importância eles davam a essa questão? Até que ponto a ignoravam? Em que contexto o gênero era relevante para os antigos?

Ao investigar casos particulares documentados pelas fontes da prática (porque mesmo os textos ditos “literários” são fontes de uma prática particular), pretendemos examinar a articulação entre as diversas formas de diferenciação social: diferença de sexo, diferença de estatuto, diferença de riqueza, diferença de cultura etc., que os sociólogos englobam sob o termo intersetorialidade (Bereni 2010).

Este catálogo permitirá que a comunidade científica disponha de uma visão geral a respeito da questão das mulheres nas cidades gregas e fornecerá uma ferramenta necessária ao estudo das mulheres e do gênero desprovido de a priori historiográficos e, sobretudo, integrar o critério das práticas sociais em que aquele nome aparece. Torna possível, ao fornecer uma ferramenta de comparação entre o que sabemos dos homens e o que sabemos das mulheres, avaliar a relevância das diferenças entre os sexos na Antiguidade grega sem fazer atuar, como muitas vezes acontece, o argumento de excepcionalidade. Isso permitirá entender melhor a complexidade das relações sociais.

Violaine Sebillotte

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